TUIUTI E O MITO DO NEOLIBERALISMO

Um filme conta uma história em duas horas; um samba enredo, em uns 70’; uma marca ou instituição vai soltando pequenos trechos do que quer relatar, em cada aparição. Neste último caso, já que se conta de maneira fragmentada e para um público desatento, o alcance eficaz da história depende do poder de difusão de que dispõe a instituição. 
Um conspícuo exemplo disso último é o mito do neoliberalismo, o mais difundido do planeta. Sustentado pela banca internacional, é contado por centenas de milhares de acadêmicos e jornalistas todos os dias e a toda hora, aparece disperso como os pedaços de um espelho espatifado, mas constantemente. 
O dragão da inflação, sem ser o personagem mais importante é uma das figuras mais conhecidas. As causas da condição social em que vivem os trabalhadores e do escasso poder de compra do salário não se discutem nem a décima parte do tempo que se lhe dedica a esse monstro. Instala-se como único e principal problema da economia de todos os dias. Desde os palcos que montam os jornais sérios, os amanuenses calculam o tamanho da ameaça com cifras de uma casa decimal, com precisão de cientista, e aventuram o tamanho futuro da sua língua de fogo alegremente, lançando valores cuja exatidão depois não se constata. 
 No mito do neoliberalismo, também, a economia das nações, ou o destino dos que trabalham nelas, aparece como ser vivo. Sempre doente, muitas vezes à beira da morte, recebe a visita dos médicos do FMI e toma os remédios que fabricam os bancos. Da origem da Dívida não se fala, é um fato pétreo, ex machina. Não interessa que represente 90% da causa da doença.  Ela é intocável. Se o dinheiro é Deus, a Dívida é a Virgem Maria.     
Em outra de suas aparições o mito lembra que o principal dever da vida de uma nação é reservar uma parte substancial de dinheiro público, mais de 40% do PIB aqui entre nós, para pagar a Dívida. É uma questão de responsabilidade e seriedade. Passado o tempo necessário para cimentar a confiança dos grandes investidores do mundo, teremos um país melhor. A tarefa, ou “dever de casa”, carrega privações e sacrifícios para as pessoas comuns. No mito do neoliberalismo, se o dinheiro é Deus, o povo é Cristo. 
Até aqui, sem pretensão de exaustividade, a realidade dos profissionais.
A ficção urdida pela Escola Paraíso de Tuiuti, por sua vez, expôs a continuidade entre a época da escravidão e a era do trabalhador livre, destacando que continuou e continua pobre, mal atendido e ignorado. O enredo, também, estendeu um fio condutor entre o capanga negro - que chicote na mão disciplinava outros negros para que se cumprisse a vontade do senhor de engenho – e o Temer Vampiro, que castiga compatriotas com ajustes neoliberais para que se cumpra a vontade do senhor banqueiro. No meio, o carro alegórico com as mãos do poder manipulando os manifestantes anti-Dilma, vestidos com a verde-amarela.
Paraíso de Tuiuti contou a história não oficial, a que circula pelos blogs e sites de pouco alcance, a história dos excluídos digitais; trouxe os elementos que o mito oficial precisa ignorar e, assim, conseguiu uma representação muito mais profunda e muito mais fiel que a  da versão profissional. Profunda porque penetrou em causas históricas: ao estabelecer a continuidade entre o capanga e Temer parafraseou, inclusive, o cientista Jessé Souza. Fiel porque, por exemplo, está claro a figura do vampiro que suga para a banca é mais adequada como representação de Temer que a figura usada pelo mito oficial do neoliberalismo que o considera presidente de um país soberano.
Pena que o desfile da Paraíso de Tuiuti terá suas 48 horas de fama e que sua verdadeira história será esquecida, esmagada pelas toneladas de palavras que, passada a quarta feira de cinzas, jogarão no ar os amanuenses da banca. Ai, findo o Carnaval, Temer será presidente desta livre nação e o pagamento da Dívida ao estrangeiro ou ao nativo europeizado nossa principal tarefa.    
             



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