UMA ENCARNAÇÃO DE EROS
Nos
anos 20, os estúdios de Hollywood já criavam e promoviam estrelas e os publicitários já colavam marcas à sua imagem, para que algo do poder carismático dessas figuras derramasse sobre as mercadorias. Em especial, aqueles produtos com sex appeal, como perfumes ou cigarros. Sempre houve, também, atores que fascinavam a plateia no cenário e despertavam a curiosidade do público por sua vida privada. Assim, a era do cinema trouxe a massificação desses ícones carismáticos e, como consequência, a expansão do público interessado em invadir a "vida real" do personagem que via no telão.
Ante o aluvião de cartas que recebia do público, perguntando o nome ou a procedência dos mocinhos e das vampiresas dos filmes, a Fox criou um departamento de propaganda para alimentar o povo. A tarefa principal dessa divisão era criar um passado para as figuras, acorde com o tipo de personagem que representavam nos filmes. Assim, Theodosia Goodman, por exemplo, nascida realmente em Cincinnati e filha de um alfaiate judeu, era para o público em geral nada menos que Theda Bara - primeira mulher vamp da história do cinema -, nascida no Saara e filha de um xeque árabe.
De maneira que as estrelas do star system passaram a ter três vidas: a de seus personagens no telão, ou onscreen; a vida íntima que se publicava sob controle dos estúdios, ou offscreen; e a vida como ela era da pessoa que trabalhava de ator. Nos casos em que os usos e costumes do indivíduo se opunham consideravelmente à imagem que vendia o personagem-estrela, geravam-se não poucos conflitos entre os estúdios e os publicitários, que eram donos da imagem, e a pessoa, que era dona do corpo e da vontade.
De maneira que as estrelas do star system passaram a ter três vidas: a de seus personagens no telão, ou onscreen; a vida íntima que se publicava sob controle dos estúdios, ou offscreen; e a vida como ela era da pessoa que trabalhava de ator. Nos casos em que os usos e costumes do indivíduo se opunham consideravelmente à imagem que vendia o personagem-estrela, geravam-se não poucos conflitos entre os estúdios e os publicitários, que eram donos da imagem, e a pessoa, que era dona do corpo e da vontade.
Ninguém brincou tanto na beira desse precipício quanto Archibald Leach, mais conhecido como Cary Grant. Como ator, protagonizou por mais de trinta anos inúmeros encontros românticos com as atrizes mais lindas de
cada momento. Com o beijo do final, marcava o momento do triunfo absoluto do amor por sobre a série de obstáculos e armadilhas que compunham suas comédias românticas. Para o público feminino,
era uma das encarnações de Eros; para o público masculino, um modelo a seguir.
Mas Archibald era gay, coisa letal para a credibilidade de um arquétipo do amante, numa cultura que não tolerava a homossexualidade. Ainda por cima, estabelecia longas relações de convivência com seus amados: nove anos com um conhecido figurinista, nas décadas de 20
e 30, quando sua carreira despontava; doze anos com Randolph Scott - figuraça do faroeste -, nos 50, quando Grant era uma das estrelas mais caras de Hollywood.
Nesses anos, os 50, a sodomia era crime nos Estados Unidos. Grant morava com Scott num bairro reconhecidamente gay e se deixava fotografar na intimidade em situações comprometedoras. Mas era uma época em que os estúdios ainda tinham enorme controle sobre o offscreen e podiam determinar com muita eficácia a parte da vida íntima que o público receberia. O alcance da mídia estava a anos luz dos dias atuais, quando as fofocas, verdadeiras ou falsas, ecoam impunes nas redes sociais, a partir da ação do público. Naquela época, havia alguns programas de rádio ou TV e umas quantas revistas especializadas, que os estúdios podiam calar com hush money.
Cary Grant morreu sem sair do armário, em 1986. Poucos anos antes, a raiz de uma piada sobre sua sexualidade, o cômico Chevy Chase foi condenado a pagar U$ 10 milhões. Só em 2011, um par de biografias e um documentário
levantaram algo de poeira sobre o assunto. Mas a
homossexualidade já não escandalizava a plateia.
Cary Grant foi durante trinta anos um modelo de macho sedutor. Com ele, o público embarcava no sonho da realização do amor, experimentava vicariamente a explosiva alegria do eterno renascer de Eros. Mas, numa cultura rigorosamente heterossexual, a verdadeira vida de Archibald era veneno para o mito. As mulheres não iam permitir que seu amor platônico continuasse encarnando num rapaz que gostava mais de seus maridos do que delas; os homens não iam querer saber que seu olho não fora suficientemente sagaz para notar que estavam
escolhendo um gay como herói. Isso pode ter conduzido a um auto-engano que funcionasse também como barreira aos boatos que puderam circular maculando a reputação da estrela.
Para o offscreen sob controle, entretanto, Cary Grant casou cinco vezes com mulheres e teve uma filha. Quando
morreu, estava com Barbara Harris, 47 anos mais nova. Dizem que Randolph
Scott, já com 88, apareceu no velório. Em sua cadeira de rodas, chegou junto do caixão, tonou a mão do seu velho amigo e chorou copiosamente.




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