PÓS-VERDADE
Em seu livro Mito e Realidade, o filósofo Mircea Eliade fala do “mito
que funciona”. Não do mito visto como história falsa com que os povos
primitivos explicam as origens das coisas, mas como história na qual um determinado grupo acredita, sem se estranhar com os elementos fantásticos que possa apresentar a trama. Cristo foi concebido por una mulher virgem, morreu na cruz e ressuscitou; quando Buda
nasceu, as árvores se curvaram para saudá-lo e ainda hoje continua nascendo. O primeiro relato é histórico para um cristão e mítico para um budista;
com a segunda historia, acontece o contrario. Para Eliade, ambos seriam
mitos que funcionam. O de Buda funciona mais no Oriente e o de Cristo mais no Ocidente.
Os seres humanos constroem boa parte da sua visão de mundo a partir de relatos e são poucos que se preocupam por checar a veracidade das histórias. E não estamos falando aqui das questões de fé - que não precisam de comprovação material -, mas de argumentos que se apresentam ao público no dia a dia para justificar condutas e medidas terrenais, seja em anúncios publicitários, telenovelas, jornais e outros. Em maior ou menor medida, as pessoas assinam embaixo de argumentos alheios. E muitas vezes, a parte mais atrativa desses argumentos é que confirmam o que nós já achamos e que pode conformar um preconceito.
Num mundo em que para parecer inteligente é necessário ter uma opinião e para parecer exitoso é necessário ter gostos pessoais, o saber e o gosto podem formar-se pela via árdua do estudo e a degustação disciplinadas ou, também, podemos recorrer às marcas caras, para demonstrar bom gosto, e às ideias dos telejornalistas mais 'inteligentes', para formar uma opinião. Ou seja, uma opinião, assim como um gosto, também podem comprar-se prontos.
Num mundo em que para parecer inteligente é necessário ter uma opinião e para parecer exitoso é necessário ter gostos pessoais, o saber e o gosto podem formar-se pela via árdua do estudo e a degustação disciplinadas ou, também, podemos recorrer às marcas caras, para demonstrar bom gosto, e às ideias dos telejornalistas mais 'inteligentes', para formar uma opinião. Ou seja, uma opinião, assim como um gosto, também podem comprar-se prontos.
É nessa brecha entre a necessidade de estar informado e a falta de tempo, vontade ou capacidade para gerar conteúdo próprio que descansa a politica da pós-verdade, ou arte de expor relatos absolutamente falsos graças a um considerável poder de difusão. Não existe política da pós-verdade sem a cumplicidade de um grupo midiático de grande alcance, a política da pós-verdade começa quando os meios de maior circulação, aqueles que detinham a confiança das massas, passam a ser braços de grupos de interesse para o estabelecimento de determinadas percepções e consensos. A diferença entre a pós-verdade e a clássica mentira política decorre, precisamente, do aumento da promiscuidade entre o discurso político e a mídia concentrada. Se com o dirigente das antigas a relação se dava na troca de favores, apoio em campanha por futuros negócios; no esquema atual, o político é empregado das corporações ou, no melhor dos casos, refém.
“Uma mentira repetida mil vezes se torna verdade”, disse Goebbels, que tinha em suas mãos 100% dos meios de propaganda e o controle absoluto sobre todas as formas de entretenimento. Com isso, ele conseguiu que muitos alemães não percebessem a contradição entre sentir-se cristãos e, ao mesmo tempo, mostrar-se indiferentes diante da caçada aos vizinhos judeus, que eles conheciam de toda a vida.
Hoje umas poucas empresas controlam, não a totalidade
das opções de informação e entretenimento, mas uma fatia suficientemente grande para ganhar um pleito eleitoral com falsidades. O método consiste em reproduzir o dislate de maneira acrítica, encobertos pelo princípio da neutralidade jornalística e da transparência, estes piratas da notícia lançam a rodar qualquer barbaridade à espera de que a mentira ecoe alegremente nas redes sociais.
O semanário inglês The Economist conta que no plebiscito que levou ao Brexit, a mídia a favor da saída assustou os eleitores com o perigo inexistente de uma horda de turcos que invadiria a Grã Bretanha, de continuar na UE. Aqui no Brasil, graças à Globo, uma presidenta foi derrocada por um registro contábil fora da data determinada por lei, em nome da luta contra a corrupção, e meses depois a polícia descobriria um tesouro de mais 50 milhões de reais escondido num apartamento pertencente ao grupo no governo.
O semanário inglês The Economist conta que no plebiscito que levou ao Brexit, a mídia a favor da saída assustou os eleitores com o perigo inexistente de uma horda de turcos que invadiria a Grã Bretanha, de continuar na UE. Aqui no Brasil, graças à Globo, uma presidenta foi derrocada por um registro contábil fora da data determinada por lei, em nome da luta contra a corrupção, e meses depois a polícia descobriria um tesouro de mais 50 milhões de reais escondido num apartamento pertencente ao grupo no governo.
Dizem que a política da pós-verdade começou com Reagan, quando foi descoberto numa mentira gorda que envolvia o Irã
do Ayatollah Khomeini com uma guerra civil na América Central e afetava 52 cidadãos
americanos sequestrados na embaixada de Teerã, por mais de 400 dias. Ao reconhecer sua falsidade, Reagan disse que seu coração e suas
boas intenções ainda lhe diziam que ele não tinha mentido, mas que as provas e
as evidências determinavam que sim. Essa lógica de Zacarias – difundida sem
críticas, desde a falsa neutralidade da imprensa comparsa - permitiu ao
presidente transformar o desastre de ser descoberto numa mentira, na virtude de reconhecer erros, provocados mais pelo seu bom coração do que pelo frio cálculo dos agentes da CIA.
Contudo, se Reagan deu o pontapé inicial, foi Donald Trump a estrela que mais longe tem levado as possibilidades da pós-verdade. Entrevistado durante a última campanha presidencial, o candidato depois triunfante disse que Barack Obama era o fundador do ISIS. Nesse momento, e ainda hoje, o Exército Islâmico era o inimigo público No 1 do universo midiático mundial. O entrevistador, ainda sendo jornalista comparsa com a função de alavancar a figura do Trump, achou que dessa vez o rapaz tinha ido longe de mais:
Contudo, se Reagan deu o pontapé inicial, foi Donald Trump a estrela que mais longe tem levado as possibilidades da pós-verdade. Entrevistado durante a última campanha presidencial, o candidato depois triunfante disse que Barack Obama era o fundador do ISIS. Nesse momento, e ainda hoje, o Exército Islâmico era o inimigo público No 1 do universo midiático mundial. O entrevistador, ainda sendo jornalista comparsa com a função de alavancar a figura do Trump, achou que dessa vez o rapaz tinha ido longe de mais:
-Você está querendo dizer que ao sair rapidamente do
Iraque, Obama gerou as condições, o "vácuo", para o crescimento do ISIS – interveio.
-Não, eu estou dizendo que ele é o fundador do ISIS. Ele e ela, Hillary Clinton.
E ponto. Na política da pós-verdade não interessa quão absurda for a história, nem que depois seja desmentida desesperada ou ironicamente em espaços de muito menor alcance. Enquanto a mentira for repetida mil vezes desde empresas com o alcance da Fox, a Globo ou a CNN o trabalho está feito. Subirão a essa barca do inferno uma boa porção de distraídos, paranoicos, preconceituosos e fantasiosos que votarão convencidos no candidato porque, afinal de contas, sem até perceber, compraram uma opinião que os tranquiliza, que lhes dá a razão.
Na era da pós-verdade, a verdade é o que menos interessa.




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